índice

1959-1964

     SONS EM TRÂNSITO

 4

 O TRIO

 6

     O FIM

 7

     1964-1970

    CHEZ LES YÉ-YÉ 

10

  FÁBRICA DE CANÇÕES 

11

             OBRAS DE FÔLEGO 

12

    POR BUENOS AIRES 

14

   1971-1975

RAÍZES NEGRAS 

17

   KALUNGAS 

19

1976-2006

     ANOS ORFEU 

22

       REGRESSO IMPOSSÍVEL 

24

  EPÍLOGO 

25

DISCOGRAFIAS

         DISCOGRAFIA COMPLETA 

28

    DISCOGRAFIA INCOMPLETA 

31

1959-1963 

4

SONS EM TRÂNSITO

Um dos grupos portugueses mais populares de sempre, 
o Duo Ouro Negro, tem uma longa história mas, apesar 
de existir inúmera informação dispersa sobre o grupo 
e as suas edições discográficas, muita da informação é 
incompleta ou incorrecta (mesmo nas edições oficiais do 
grupo) ou está pouco sistematizada. No contexto actual, 
e apesar da maior circulação no mercado de segunda mão 
de cópias dos discos, continua por editar em digital, e de 
uma forma cuidada, a sua obra discográfica ou até análises 
sobra a mesma (fora de um contexto académico). Assim 
sendo, fica por agora publicado e público, este contributo 
para todos os que tropeçam na discografia do grupo.

A história musical do duo composto por Raul Aires Cruz 
(1933-2006) e Emílio Mac Mahon (1938-1985) começa 
com o seu reencontro em Uíge (então Vila Carmona) 
em 1956. Fruto de famílias mestiças, tinham-se já cru-
zado durante a infância em Sá da Bandeira (Lubango). 
A denominação Ouro Negro terá sido sugerida pela 
locutora de rádio Maria Lucília Dias numa analogia 
entre os músicos e tudo aquilo que é valioso e raro, num 
comentário a uma das suas primeiras actuações ao vivo. E 
é em Luanda, após uma actuação no Cinema Restauração 
(a sala de prestígio da cidade nesses anos e onde funciona 
hoje a Assembleia Nacional), que o empresário Ribeiro 
Belga os contrata para actuarem também em Lisboa, no 
Cinema Roma.

As actuações do duo nesse ano de 1959 são um sucesso e 
é numa das sessões do cinema Roma que o incontornável 
Hugo Ribeiro os descobre, sendo que nesses anos o seu 
trabalho passa não só pelas gravações, mas também pela 
descobertas de potenciais estrelas para o catálogo do seu 
chefe, Rui Valentim de Carvalho. Faltava decidir qual o 
acompanhamento a dar aos dois músicos (nessa altura 
eram comuns as ‘orquestras’ de acompanhamento aos 
interpretes). E é aqui que surge um brasileiro talentoso 
que estava em trânsito por Portugal com o seu grupo, 
mas que acabou por ficar alguns meses entre 1959 e 
1960, por motivos provavelmente pouco musicais. É 
ele o talentoso multi-instrumentista Severino Dias de 
Oliveira (1930-2006), mais conhecido por Sivuca, que 
edita também nesse período dois discos (um deles com 
uma versão do tema O Lápis do Lopes de Mário Simões), 
e fará acompanhamento a alguns artistas (gravações do 

Primeiro disco do Duo 

Ouro Negro, EP editado 

pela Columbia em 

1960. Em baixo outra 

imagem da mesma 

sessão fotográfica.

5

II Festival da Canção Portuguesa no Porto em Maio de 
1960, por exemplo). Alguns dos temas gravados em nome 
próprio por Sivuca em Portugal, serão também lançados 
em LP pela Odeon brasileira sob o título Vê Se Gostas 
(em Portugal só muito no final da década de 1960 é que os 
LP’s se vão vulgarizar).

Quanto ao Duo Ouro Negro, e para a sua estreia em 
disco, são então lançados em 1960 dois EP’s gravados 
com a orquestra e os arranjos do Sivuca para temas de 
folclore angolano. As capas em dourado e preto dão 
grande coerência a estes primeiros lançamentos, sendo 
para a capa do primeiro disco recuperada uma fotografia 
tirada numa sessão de estúdio ainda no Uíge em Angola. 
O texto, num tom bem paternalista (comum na música 
popular e no contexto colonial) apresenta assim o grupo 
na sua estreia:

Este simpático agrupamento angolano que, pode dizer-se, 

conquista agora o público metropolitano da mesma forma 

instantânea como já havia conquistado o de Angola é com-

posto por dois jovens de cerca de vinte anos. Começaram 

a cantar de forma imprevista, durante uma festa. E pode 

dizer-se que o espanto dos ouvintes e amigos foi igual ao 

dos próprios cantores, de tal forma ficaram surpreendidos 

com a sua habilidade. Nasceu assim o mais conhecido dos 

conjuntos de Angola, cujas actuações são disputadas. Eis o 

seu primeiro disco, primeiro degrau de uma consagração 

inteiramente merecida.

Muxima Terra de grande beleza entre Luanda e Malange 

à beira do rio Quanza, altar de Santa Ana (a mais 

milagreira do norte de Angola), Muxima é justamente 

um cântico de louvor a Santa Ana. Mana Fatia Conta 

a história de uma vendedeira que por ser bonita e afável 

consegue ter sempre para vender as mais frescas hortaliças 

e frutas. Kuricutéla História e reacções de um negro do 

interior que vê e anda de comboio pela primeira vez. Tala 

On N’Bundo História de um preto esperto que quer jantar 

e beber vinho só por 5$00.

Texto da contracapa do EP Slem 2053, 1960.

Os temas incluídos nos dois primeiros EP’s do Duo Ouro 
Negro fruto deste encontro único com Sivuca, serão alvo 
de inúmeras reedições ao longo dos anos (capas onde o 
vermelho substitui o dourado, ou ainda utilizando outras 
fotografias e arranjos gráficos para manter a actualidade e 
potencial de venda destes discos). E para além das edições 
em EP, estes temas surgem ainda em inúmeras compila-
ções, Tala On N’Bundo (LP, 1966), Africaníssimo (LP, 

O Conjunto 

Os 

Brasileiros em tournée 

pela Europa em 1958. O 

albino Sivuca (segundo 

a contar da direita) 

acaba por ficar  pela 

Europa até 1964. É nos 

meses que fica em 

Portugal (entre o final 

de 1959 e 1960 antes 

de rumar a França) que 

grava com O Duo Ouro. 

O segundo EP do Duo 

Ouro Negro, onde 

surgem acompanhados 

pelo Fiat 1200 Granluce 

(lançado no salão de 

Turim em Novembro 

de 1957).

6

1971) ou Duo Ouro Negro com Sivuca (CD, 1998). Sendo 
de destacar aqui o LP Africaníssimo, claramente uma 
tentativa de explorar a associação a Sivuca, que prosseguia 
uma carreira de sucesso nos Estados Unidos à data do 
lançamento do LP (metade do disco compila aliás temas 
sem a presença do músico brasileiro).

Depois deste auspicioso arranque lançam, em 1961, um 
EP com acompanhamento da orquestra de Joaquim Luís 
Gomes (1914-2009). São quatro baladas com orquestrações 
pesadas e desadequadas ao grupo, mas que mostram a 
diversidade musical que o grupo irá ter ao longo dos anos, 
alternando momentos de grande qualidade com outros 
de grande dispersão e desinteresse, sempre na busca de 
sucesso e afirmação enquanto músicos e também com-
positores (talento que irá desapontar nos anos seguintes). 
Neste terceiro EP os músicos continuam em sintonia no 
guarda roupa (outra imagem de marca da época), usando 
como cenário as Quedas de Kalandula (denominadas na 
altura como Quedas do Duque de Bragança), localizadas 
no rio Lucala (afluente do rio Kwanza).

O TRIO

Com nova ida a Angola o grupo volta a surgir não como 
um duo, mas reforçado com um novo acompanhante, 
José Alves Monteiro (Gin), passando a apresentar-se como 
um trio. A denominação será nesta fase apenas Ouro 
Negro, sendo usada pontualmente a designação Trio Ouro 
Negro. Vão lançar com esta formação um conjunto de 5 
EP’s entre 1961 e 1962.

A ambiguidade do grupo na sua relação com o poder 
reflete-se bem nestas cinco capas e respectivo conteúdo. 
Um conjunto de três das capas, apresenta várias imagens 
de uma mesma sessão fotográfica. O trio interpreta 
nestes discos temas de folclore angolano cantados em 
dialecto local e apresenta-se vestido com trajes exóticos 
aos olhos ocidentais, num cenário que simula a natureza 
sem intervenção humana (excepto na última das capas 
onde se percebe que estão num jardim!). Alternado o 
lançamento deste discos onde se exibe este exotismo para 
consumo ocidental (não esquecer que estão ainda em 
voga nos Estados Unidos e também na Europa dezenas 
de declinações musicais e gráficas de Exotica, como Yma 
Sumac ou Les Baxter) são lançados outros dois discos com 

Mais uma fotografia em 

Angola para o terceiro 

EP do grupo, lançado já 

em 1961.

O Trio Ouro Negro numa  

fotografia promocional 

e interpretando 

Txakuparika numa 

apresentação gravada 

pela RTP na Feira 

Popular de Lisboa 

em 1963.

Em 1962, no 

primeiro disco com o 

apompanhamento do 

Thilo’s Combo de Thilo 

Krasmann.

7

capas e conteúdo onde se quer transmitir uma imagem 
urbana e cosmopolita do grupo (para além do português, 
há aqui temas cantados em francês e espanhol). Estes dois 
discos usam fotografias de uma mesma sessão fotográfica 
realizada nos jardins da Praça do Império (construída em 
1940), constituindo assim mais um paradoxo, provavel-
mente um pouco involuntário, dos muitos na história do 
grupo. Estes dois discos têm claramente um pendor mais 
pop, um deles de novo com a orquestra de Joaquim Luís 
Gomes (aqui com mais espaço para o grupo respirar), 
e outro com acompanhamento do mais inovador Thilo 
Krasmann (1933-2004) e o seu Thilo’s Combo, uma 
colaboração que virá a dar mais frutos no futuro.

Poucos conjuntos artísticos terão firmado tão rapidamente 

os seus créditos como o Trio Ouro Negro. Em menos de 

um ano, três rapazes vindos de Angola passaram do mais 

completo anonimato à posição de verdadeiras vedetas 

do music-hall português. Tal êxito torna-se ainda mais 

apreciável se verificarmos que foi conseguido com um 

reportório constituído quase exclusivamente por obras de 

folclore angolano, cantadas numa língua praticamente 

desconhecida da maioria do público… Vencendo uma 

nova etapa da sua carreira, o Trio Ouro Negro apresenta-

se agora num disco que se concretiza, muito em especial 

pela variedade do seu reportório: duas canções (Garota e 

Sempre Só) são originais dos próprios artistas; a terceira, 

Uska Dara, é uma lindíssima melodia turca; por fim, a já 

clássica Mãe Preta, numa versão que nada tem a ver com 

as anteriores. Estes trunfos. aliados ao talento interpre-

tativo do Trio Ouro Negro, são motivos de sobejo para se 

augurar a este novo disco uma carreira tão triunfal como a 

dos anteriores.

Texto da contracapa do EP Slem 2103, 1961.

O FIM

Simultaneamente com todos estes lançamentos discográ-
ficos e com o arranque da carreira internacional do grupo, 
inicia-se a guerra em Angola (nos primeiros meses de 
1961) e, apesar da relutância em terem qualquer conotação 
política, será eventualmente por razões políticas que o 
novo elemento do grupo desaparece –literalmente– de 
cena em 1963. Algumas das histórias que circulam 
referem pedidos de asilo à Holanda, fugas a salto para 
a Checoslováquia do outro lado da cortina de ferro ou 
traições dos colegas de grupo fruto de lutas de ego. O 
facto é que Gin não mais voltará a aparecer, e a sua saída 
é apenas uma das razões para a dissolução do grupo em 

O Trio Ouro Negro em 

pose indígena para 3 

EPs onde interpretam 

temas tradicionais 

ou de matriz mais 

tradicional.

8

1963. Entretanto algo mais tinha mudado para além da 
multiplicação dos espectáculos, Milo MacMahon casa-se, 
e o desentendimento no seio do grupo é, segundo Raul 
Aires Peres, irreversível. Em 1963 não é editado nenhum 
disco do grupo e Raul Aires Peres decide lançar a sua 
carreira a solo com actuações em França, sob o nome 
artístico de Raul Indipwo.

Ilustração da 

contracapa do EP 

Garota de 1961.

1964-1970 

10

CHEZ LES YÉ-YÉ

Apesar do colapso do Trio Ouro Negro em 1963, ano em 
que não editam nenhum disco, o regresso acontece logo 
no ano seguinte. E acontece no formato que se manterá 
até ao final da carreira do grupo, 20 anos depois: o Duo 
Ouro Negro. Em 1964 os dois primeiros EPs que lançam 
recorrem à mesma sessão fotográfica e mostram o duo 
como jovens estrelas pop de sabor veraneante! E não era 
para menos, está-se em pleno boom yé-yé, ou seja com 
o rock ‘n’ roll a entrar em força, mesmo que através das 
suas derivações europeias, especialmente as francesas e 
italianas. Para reforçar esta colagem às novas sonoridades 
pop, o acompanhamento em 3 dos 4 EP’s lançados neste 
novo fôlego do grupo, é feito pelo Conjunto Mistério. 
Entre as várias versões que vão pontuando o repertório do 
grupo, surge uma pouco interessante adaptação de I Want 
to Hold Your Hand

 dos Beatles vertida para português (o 

original tinha sido recém lançada pelos fab four no final 
de 1963). Como curiosidade, a canção não surge creditada 
à dupla Lennon/McCartney, mas sim a Raul Indipwo. 
Paralelamente ao acompanhamento pelo conjunto 
mistério, repete-se e aprofunda-se a colaboração com 
Thilo Krasmann, um verdadeiro embaixador das correntes 
mais tropicais neste país cinzento e triste. Correntes essas 
muitas vezes associadas a estilos de dança específicos que 
passam pelo Cha cha cha, Twist, Surf, Jerk, Madison,… 
Tudo sonoridades com um grande impacto também em 
França e que só a partir de 1966 se desvanecerão com a 
afirmação global do pop-rock mais formatado de origem 
anglo-saxónica.

O último EP editado com o Conjunto Mistério tem, na 
sua capa as letras KWELA com o duo a formar os dife-
rentes caracteres da denominação desta dança de origem 
sul africana, cuja musica o Duo Ouro Negro adaptou e 
lançou em nome próprio. E é paralelamente a este EP, que 

Coca-Cola na mesa. 

Luanda, 1964. Sessão 

fotográfica para 

o regresso com o 

Conjunto Mistério. 

Duplamente brilhante: 

a capa do EP ‘Kwela’ 

(1965) e da revista 

‘Álbum da Canção’ 

(Abril de 1967).

Dançando a Kwela: 

Foto-instruções da 

contracapa do EP ‘La 

Kwela’ (França, 1965).